quarta-feira, maio 18, 2005

Premonição


Abriu a caixa do correio, no meio da publicidade, duas cartas, uma do banco e outra das finanças, mau agoiro pensou, abriu a do banco e confirmou o que suspeitava a mensalidade para pagar no final do mês. Nervosamente rasgou o envelope que teimava em enrodilhar-se nos dedos, até que conseguiu olhar em suspense, o motivo da carta, uma leitura em diagonal atravessou o seu raciocínio para uma reunião oito dias depois. Não pode ser coisa boa, com estes abutres saio sempre a perder. O seu pensamento voou pela saldo bancário, o jantar a preparar, e quando deu conta estava sentada no sofá a olhar estupidamente as brasileirices que a obrigavam a um zapping habitual, mas naquele dia, apenas os diálogos do caixote televisivo ficaram a preencher a sala, ela há muito que se sentia, outra vez fora de si em corpo e alma. Desde criança que atravessava momentos em que ao concentrar-se, ao tocar em certos objectos, sentia que o seu corpo ficava, mas a sua alma voava para lugares estranhos onde visualizava outras pessoas em situações difíceis. Lembrava-se perfeitamente, em África ter descoberto aquele casal que perdido no meio da savana estava abrigado numa toca no meio do Muambo.

Mas agora tudo era diferente ali estava ela no sofá deitada e bem acima desafiando a ubiquidade, estava em frente a uma fulana, bem arranjada, um tailler clássico, mas a sua expressão e o olhar eram predadores, sentia um nervoso que não conseguia explicar, nem conseguia perceber o que ela estava a falar. Sim era qualquer coisa da NATO, o símbolo numa das paredes da sala não deixava dúvidas. Estranho mas o que é que aquilo tem haver com as finanças?
De repente acordou, a campainha tocava incessantemente, pressentiu a vizinha da 5º esq. Abriu a confirmação daquilo que antevira. Com um olhar cusco, exalando um odor onde o perfume se misturava com o cheiro do refogado e do cigarro, disse, mas não antes de rodar o pulso por forma a que o cigarro atingisse um desequilíbrio desafiante, daqueles em que qualquer cigarro olha para baixo do pulso e vê um precipício:
- Lara estiveram aí dois fulanos a confirmar se você murava no 5º dir. Fizeram várias perguntas, você anda metida nalguma coisa ?
- Oh Dª Gizela, passo o dia no escritório sabe bem. Mas que perguntas?
O diálogo antecipava uma noite em que o jantar se atrasava, a dor no estômago estava a apertar e o telemóvel salvou-a da melga da vizinha.
O dia 8 não se fez esperar. A reunião não lhe saia da cabeça, arranjou-se a preceito e fez deslizar o carro avenida abaixo. Entrou, retirou uma senha e aguardou a sua vez. O marcador no cimo da parede escondia a ânsia dos contribuintes em serem atendidos. O seu número resistiu pouco tempo antes de aparecer, 38 era agora. O funcionário, olhos de boga e barba por fazer conduziu-a por um corredor até a um conjunto de gabinetes contínuos. Pararam no gabinete cujo letreiro dizia Drª Mónica Mello. Ao fundo numa cadeira larga estava uma figura de meia idade, olhos vivos e óculos de estilo.

A voz era calma e articulada, feitas as apresentações foram directas ao assunto:
- O blogue "Sentimento de si" é seu ?
- Sim.
- Aqui não estamos propriamente nas Finanças, mas na entrada da área 6, já ouviu falar ?
- Não nunca, mas o que é que isso tem haver com o meu blogue ?
- Os seus textos são reveladores de uma pessoa com atributos que nos interessam ?
- E que atributos são esses ?
- Atributos premonitórios digamos.
- Como? Retorquiu sabendo perfeitamente onde iria chegar a conversa.
- A sua capacidade de antecipação, de antever situações pode-nos ser muito útil e a razão porque está aqui é exactamente essa. Convidá-la para se juntar à nossa equipa de Profilers.
- Profilers ?
- As suas qualidades também existem noutras pessoas, algumas já estão a trabalhar connosco e digamos que apuraram esse sexto sentido por forma a obter melhores resultados.
- Desculpe, mas que tipo de trabalho é esse.
- Venha comigo vou conduzi-la ao nosso centro.
Saíram e voltaram a entrar dois gabinetes depois. Dentro do gabinete uma porta de elevador.

Foi convidada a entrar e lá dentro, após a introdução de uma chave começaram a descer. Agora as mensalidades da casa e do carro pareciam-lhe mais leves, um turbilhão de ideias levou-a ao estúpido do namorado que deixara, à passadeira onde ia sendo atropelada, até ao refúgio inseguro que a sua casa deixara de ser.
- Como é que me localizaram?
- Fizemos um TraceBack aos pacotes do seu blogue.
Estes gajos marcam os pacotes...será possível?
Lara minutos mais tarde era admitida no serviço área 6 – Profilers Nato.

6 Comments:

Blogger Estrela do mar said...

...@miguinho...logo que comecei aos pouquinhos a comentar alguns blogs...senti uma enorme vontade de continuar com o meu...e assim fiz...

Um beijinho*.

1:07 da tarde  
Anonymous Dora said...

Fantástico, em todos os sentidos! Parabéns e um bom fim de semana :-)

11:33 da tarde  
Blogger Um Olhar Sobre... said...

:) Bom dia Luis
E com área6 ou sem ela cá estamos para continuar e postar, e acima de tudo para te vir visitar e ficarmos encantados com a tua escrita...,adorei o texto!
Um bom começo de semana.
Beijo grande grande

10:48 da manhã  
Blogger soldeinverno said...

adorei o teu conto... volto sequiosa de mais... jinhuz

5:16 da tarde  
Blogger Mª João said...

Luis D.

Olha, dentro ou fora da área 6, com ou sem traceback, vou por aqui passando, porque gosto de ler o que escreves.

Este está muito "AXN style". Gostei.

Um beijinho,

7:59 da manhã  
Blogger Cassiopeia said...

Destesto a instituição NATO. Porém, o ofício de Profiler parece-me fascinante e meritório.
Gosto do modo como apresentas este episódio: a vizinha chata, a sensação que se tem quando se recebe uma convocatória de uma instituição estatal, a fome que aperta e a estúpida caixa televisiva plantada na sala a falar português brasileiro desprovido de conteúdo.
Beijos

12:19 da tarde  

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